RONALDO ANTUNES CLASSICAL & CONTEMPORARY REALISM

NOSSA FILOSOFIA

 

     Um artista precisa aprender as técnicas visuais para transmitir ideias. Sem treinamento, ele se perde. Da mesma forma, como um músico não pode executar música sem primeiro aprender sobre notas, escalas, ritmo e harmonia. É preciso aprender as regras antes de poder usá-las de maneira individual e única. A paixão por si só não é suficiente para criar arte. Um poema escrito com o coração, mas cheio de clichês, não é tão poderoso quanto um poema composto com conhecimento estrutural e ponderação. Contudo, o artista não pode estar limitado a fronteiras, por isso, a arte simplesmente é boa ou ruim e isto não tem muito a ver com o tempo. O problema maior, dentro da nossa filosofia estética, é que os fundamentos da grande arte foram preteridos na nossa época e uma história diferente foi contada ao público, que hoje começa a perceber os valores que foram ocultados na penumbra por interesses de uma minoria.

    No início da minha trajetória como ilustrador, década de 70, ainda cursando a Escola Nacional de Belas Artes e trabalhando em uma grande agência de publicidade, conheci um mestre do desenho – Ivan Wasth Rodrigues –, que me apontou o caminho da Old-school. Tornei-me seu aluno, mas só me dei conta da grandiosidade do mestre depois de anos de convívio, talvez por estar nessa época com a visão voltada para o mundo da publicidade e seus brilhos passageiros. Era o momento do Push Pin Studios, dos gigantes do design gráfico como Milton Glaser, Seymour Chwast, John Alcorn e dezenas de outros ilustradores famosos. Mas, nessa agência onde conheci Ivan, meu objetivo estético começou a tomar forma: surgiu em mim o interesse pela especialização em temas históricos, além de cultivar outros gêneros tradicionais da pintura. Pintor ou ilustrador, não me importava muito com esses rótulos, uma vez que meu propósito na arte se cristalizava.

    Dessa época em diante, meu intento na arte tem sido o gênero histórico. Quando abordo a questão da pintura de temas de época, minha preocupação, além dos requisitos básicos da arte tradicional e através da pesquisa acurada, é recriar um momento da História comprometido com a linguagem plástica. Então, vislumbro um espaço indeterminado de tempo, uma época qualquer e observo o sentimento humano através da minha janela particular, aberta para o cotidiano de tempos pretéritos. Meu objeto primacial é a linguagem da pintura. Representativa. Porém, como não poderia deixar de ser, a reflexão permanece entranhada como um fator inalienável à minha produção pictórica. Assim, preocupo-me, concomitante à pesquisa histórica, em captar a energia e o espírito de um momento que visualizo de um tempo ido, mas que permanece vivo para mim, simplesmente porque é o que ainda me diz algo hoje no universo da pintura. E sou narrativo sim, com muito orgulho!

    O vasto acúmulo de detalhes que compõem o universo do gênero histórico, com a honestidade da própria pesquisa, é o que vai conferir autenticidade a esse tipo de pintura. Invariavelmente, é um processo que envolve contatos com especialistas, museus, bibliotecas e livrarias temáticas. Para os críticos precipitados isto poderia caracterizar ilustração, mas é o que me preocupa menos. Entretanto, dependendo do meu conceito inicial, quando me interessa, também sei ficar distante dos elementos que podem sugerir ilustração. Abordo os intrincados problemas da luz, da composição pura, da caracterização, buscando resultados através do que gosto de fazer, da visão penetrante e do sentimento profundo.

    Não se pode preterir a formação ancorada aos valores técnicos e estéticos da Old-school se o objetivo do autor for a pintura tradicional. Sobre a arte histórica, sem duvida é o gênero considerado como dos mais difíceis, visto que exige formação específica do artista. Os temas de época levam o pintor a uma dedicação monástica através das etapas de documentação historiográfica, pois requerem uma fidelização inevitável à iconografia, sem a qual a autoridade histórica tende a se esvaziar. Em nossa época, testemunhamos o talento de grandes pintores de temas históricos: Tom Lovell; Stanley Meltzoff; Ben Stahl; Frank Reilly; Robert Thom; Dean Cornwell; John Stobart; Morton Kunstler; Don troiani; Augusto Ferrer-Dalmau; Morgan Weistling; Vitaliy Grafov e centenas de grandes mestres comprometidos com um gênero pictórico sustentado por séculos de tradição na grande arte. 

    Nos tempos da publicidade, resolvi estudar um pouco mais antes de me precipitar com exposições pueris – agarrei-me aos princípios clássicos. Tive passagem temporária pelos ateliês de grandes mestres, como Oswaldo Teixeira, estudando modelo vivo; Edgard Cognat, composição; Rui Campello, técnicas do óleo e João Medeiros, paisagem. Então, pela primeira vez, vi a arte com mais respeito. Mas foi com Ivan Rodrigues que me firmei no aprendizado mais longo. Entretanto, na medida em que convivia com o mestre, constatava o imenso grau de dificuldade para obter resultados satisfatórios com a aquarela e a base de desenho que ela exige. Não é à toa que ele jamais deixou esta técnica para se dedicar ao óleo. Sim, porque se com as miniaturas em aquarela já é árduo cultivar o gênero histórico, quanto mais abordar tamanho desafio com óleos de dimensões maiores. Com Ivan, então, iniciei-me no desenho acadêmico e na aquarela, através da sua ótica extremamente crítica. Como se fosse hoje tenho lembrança do estúdio do mestre, com o seu cheiro característico, os milhões de esboços e livros espalhados, que me traziam o sabor da História. Então, daqueles dias em diante, nunca perdi o interesse pelo desenho clássico e pela pintura de temas de época como meio de expressão artística.

    Nos anos seguintes, tentei por em prática meu objetivo. Conheci outro grande mestre na Editora EBAL, Monteiro Filho, o maior gênio do guache que já vira e que me orientou pacientemente nesta técnica. Depois, tornei-me amigo de mais um mestre excepcional, de formação clássica, Oscar Palacios, de quem recebi instruções por algum tempo na ilustração, mas que me incentivava a deixar a propaganda e a caminhar na direção da pintura de forma profissional.  Assim, na busca inquietante pelo que almejava, afastei-me da publicidade e fui parar nas editoras, trabalhando um bom tempo como designer e ilustrador, onde obtive maior sintonia com meu estilo. Comecei desenhando histórias em quadrinhos; capas de livros de autores célebres e ilustrando clássicos da literatura a nanquim, guache, aquarela, pastel, óleo, etc. Esse período foi fundamental na minha caminhada, pois me forçou ao exercício constante do desenho que aprendera com Ivan e outros mestres.

    O problema em justificar o figurativo realista é pela sua natureza vulnerável aos ataques, já que é algo absolutamente transparente ao público. Qualquer “erro” de execução, por menor que seja, será sempre alvo de críticas. Entretanto, tudo que envolve a figura humana, representa o desafio maior na arte, o ponto alto na pintura de cavalete, justamente pela dificuldade técnica, que torna o progresso tão demorado ao requerer, num longo caminho, humildade e paciência. Todo estudante de pintura precisa adquirir os fundamentos técnicos necessários para se intitular artista. Os grandes mestres tinham perfeita consciência de que o segredo do sucesso não depende apenas de inspiração, mas de muita disciplina aplicada na busca do domínio técnico. Hoje em dia, existe uma convenção equívoca de que seguir os passos dos velhos mestres representa um bloqueio à expressão própria... Falsa proposição! Só a intimidade com a técnica é que pode realmente expressar de forma plena a visão única e interior do artista sério. Aceitei o desafio de não atender aos acenos da estrada larga, aos barulhos da moda. Por fim, libertei-me do conceito modernista de que tudo o que se faz sobre uma tela é válido. Arte jamais pode ser qualquer coisa e é por isso que me oponho frontalmente ao sofisma de que “não existe essa coisa chamada de arte, existem apenas artistas”. O domínio técnico da pintura é um fato e jamais poderá ser destruído pela falsa dialética dos que trilham o caminho fácil ou pretendem a anulação das etapas a serem percorridas no aprendizado sério. 

    A perversidade dos cultores da arte sem técnica reside em encher a cabeça do neófito com o conceito nocivo de que tudo o que se pinta é bom e aceitável. Isso faz com que ele estacione e se torne preguiçoso, admitindo como arte qualquer coisa que aconteça sobre uma tela, geralmente acompanhada de pobres discursos estéticos. O objetivo venenoso da pintura da moda é a “necessidade de autoexpressão” e não a verdadeira finalidade, que é comunicar algo mais universal ao expectador. Algo sobre a vida e não sobre os confusos postulados estéticos da nossa época, que não guardam nenhum interesse por parte do público. Como disse Da Vinci: “O supremo infortúnio é quando a teoria suplanta a técnica” e isso nós encontramos nas receitas insossas da arte sobre a arte. Meu objeto primacial é a linguagem da pintura. Representativa. Porém, como não poderia deixar de ser, a reflexão permanece entranhada como um fator inalienável à minha produção pictórica. 

    O discurso desbotado de que a arte tem que retratar o seu tempo é muito relativo. Quem tem obrigação de retratar o seu tempo é o jornalista e não o pintor... Arte é mais do que algo que dependa do tempo presente. Através de uma execução técnica pessoal, tenho o pleno direito de me fixar em elementos do passado por achar pobre o que vejo no presente. Direito de autor. Talvez pela ausência de sentido no mundo que vejo hoje, eu encontre o sonho na reconstrução do passado. Para “dizer” as coisas, protestar, questionar, existe a palavra. Faço isto com o texto. O que pesa na minha filosofia de arte é a linguagem da própria pintura, é a luz determinando as cores com suas infinitas variações. Assim como a música, na sua qualidade pura, não tem que dizer nada, mas expressar apenas um sentimento subjetivo pela associação dos sons. O mesmo ocorre num quadro com a associação de formas e cores. No mundo de hoje, tudo pode ser representado pela arte tradicional: o amor, a guerra, o trabalho, tensões sociais, a solidão, a paz, o desespero e o sagrado. Embora um quadro não valha pelo que represente, mas pela emoção e interpretação do seu autor, os temas muitas vezes estão presentes na arte oriunda da tradição. Essa arte é muito forte, pois se perpetua quando existe a sublimação do humano, do ofício e do significado técnico.

    Não é preciso desconstruir a tradição de séculos de pintura para se expressar com grandiosidade, como o ingênuo que se acha capaz de demolir o edifício da tradição clássica. Até já virou refrão o dito superficial de que a forma tem que ser diluída, pois, para reproduzir a natureza, já foi inventada a fotografia.Só que os mestres do passado, como os do realismo contemporâneo, nunca pretenderam reproduzir simplesmente a natureza, mas interpretá-la e isso não está ao alcance de qualquer tipo de máquina. O olho se diferencia bastante da lente de uma câmera, ele é seletivo e perfeito. Não é à toa que Cézanne declarou: “Monet é apenas um olho –, mas Deus meu, que olho!”.

    O realismo foi interpretado erroneamente ao longo do século vinte como uma arte imitativa. Entretanto, os grandes realistas conseguem atingir o maior poder de força criativa entre todas as outras escolas de pintura. Exatamente por isso, é o estilo mais desprezado por aqueles que não têm a coragem necessária para se aproximar de tal realização... Acusam o realismo de ser fotográfico, só que a visão do pintor realista é o oposto do que faz a câmera. A foto achata, distorce a imagem, reduzindo as suas relações de tom, cor e matiz, ao estabelecer um resultado mecânico. O pintor experiente identifica nuances, valores e relações tonais da natureza, com um olho treinado para isso. O verdadeiro tema do pintor realista é a sua própria fluência pictórica, por isso, ele consegue projetar suas nuances de visão numa imagem pintada. Perceber uma obra realista de valor significa dar um mergulho no mundo pictórico dos mestres que dominam o poder da ficção. Com o detalhe de que, no mundo atual, o realismo voltou com força absoluta, sendo prova de que o público redescobriu valores abandonados.

    Na verdade, o que importa é como se pinta e não o que se pinta. Para percebermos a grandeza de uma obra de arte, não precisamos de discursos com palavras fortes que dão impressão de conteúdo. Não precisamos de discursos surreais, nem de personagens gritando tal qual o universo daliniano, ou formas apelativas de cabeças saindo do mesmo corpo como demonstração da dualidade dos gênios. Nada disso, mesmo porque os ismos esgotaram as novidades na pintura de cavalete, por isso, pretendo manter distância de qualquer compromisso com a “abertura de novos caminhos”.

    Para sentir a profundidade na arte, não precisamos de imitadores de Francis Bacon, de Redon, de Chagal ou Blake, nem de trucagens oníricas tão comuns aos filhotes das transcendências. Então, resolvi pintar da forma que aprendi, de maneira simples, despreocupando-me com o caminho das novidades. É nas sutis variações técnicas nascidas da tradição que vamos encontrar uma chance de realizar algo com algum tempero de originalidade, pois só assim a alma passa a estar no controle da execução. Tudo se resume na interpretação pessoal: ideias quase todos têm, mas é a execução com conhecimento que determina a qualidade da arte. Por isso, rejeito a profundidade pregada pelos estetas desocupados.

    A excelência artística não é o discurso vazio, ela é plena dos seus requisitos tradicionais. Desta feita, não quero ser confundido com artistas que usam argumentos anêmicos para dar sustentação a qualquer coisa que resolvem chamar de arte. O que marca meu trabalho é o compromisso com uma pintura séria no que se refere aos seus cânones tradicionais. Portanto, arte não é só uma questão de mercado. Nunca será. Arte é a medida direta da visão espiritual do homem e isso envolve mais do que o dinheiro. A qualidade que busco alcançar no meu trabalho estará sempre vinculada à solidez da técnica. O valor da pintura forjado em discursos que se alternam de lugar para lugar, de ventos que sopram, terá sempre um valor relativo. Assim como é relativo todo o valor conferido pela crítica, quando eivado de subjetividade.

    Um pintor jamais poderá transmitir a sua mensagem se for impotente para expressá-la com a mesma verdade técnica que nos legaram os mestres do passado. O sentido técnico e estético foi o fundamento das obras maravilhosas da antiguidade. Aqueles mestres somaram à faculdade de criar uma larga experiência e profundo virtuosismo. A expressão do gênio se tornou possível pela solidez da execução, logo, o pintor que se prende a qualquer outro trabalho que não seja o simples manejo do pincel e renuncia aos conhecimentos técnicos da própria pintura, se desenvolve sobre uma base falsa de areia movediça. O pintor honesto percebe que a técnica contém recursos infinitos, muito mais ricos do que sistemas e teorias abstratas que os candidatos a gênio fundamentam suas conquistas.

    Alguns estetas sustentam a tese de que devemos repudiar a obra dos artistas que cabalmente se alicerçam no tratamento do tema e na técnica. Ensinam que precisamos, a todo custo, descobrir o que o pintor pretende dizer com o seu trabalho. Entretanto, volto a insistir que, se o artista pretende dizer alguma coisa, que o faça em prosa ou verso. Tentar “dizer” significa que ele talvez tenha falhado, pois uma obra de arte não tem necessariamente que dizer nada. Uma pintura é feita de imagens que, quando associadas, geram um sentimento completo. Ela pode ser gritante ou tranquila, suave ou agressiva, calma ou excitante, clara ou escura. O expectador não deve ir atrás do que significa o quadro ou até do que o artista queira dizer. Ao contrário, o expectador deve investigar como o pintor criou a obra e isso não significa somente técnica. O “como” envolve as escolhas que o artista fez para estabelecer os seus meios, unificar as imagens e chegar ao seu estilo. Entretanto, se o pintor precisar dizer algo espiritual, social ou político, que o faça sem perder a visão principal da sua interpretação.

    A pintura se esvaziou na busca paranoica pelo individualismo, pois, quase sempre, a originalidade é a primeira manifestação de uma futura vulgaridade. Ticiano era completamente diferente de Rafael e Rubens tinha um caráter oposto ao de Velázquez. Nenhum desses artistas estava deliberadamente fazendo uma escolha com o objetivo de expressar sua personalidade. Isso acontecia incidentalmente, tal como nos expressamos nas nossas atitudes, realizações e até na nossa própria caligrafia. O principal para eles não era o tema que pintavam e, sim, como o pintavam. A preocupação maior dos mestres do passado não era com o individualismo ou com a expressão. Comprometiam-se com o profissionalismo, apuro técnico e com a excelência artística. Foram mestres da pintura e, assim, se expressaram grandiosamente. Não criaram obras-primas pensando em produzir novidades e o estilo deles foi construído de forma natural. Assim, sem pretensões mais elevadas, gostaria de contar a história da humanidade através da sua gigantesca vulnerabilidade e pintar a luta que o homem trava, desde os seus primórdios, para construir algo mais permanente do que ele próprio.

    A técnica é produto do autodesenvolvimento: é a ciência dos meios, base de toda grande obra. Aliás, o talento é o conhecimento do ofício. Arte sem técnica é a amputação do Belo, obra de falsos moedeiros e anões estéticos. Sobre isso, Renoir nos deixou a lição: “Não há nada fora dos clássicos. Para agradar a um estudante, mesmo ao mais opulento, um músico não pode acrescentar outra nota às sete existentes na escala. Deve sempre voltar à primeira. Pois a mesma coisa acontece na pintura”. Só os voluntariosos lutam pelo que acreditam, enquanto os que fogem na vida acusam os realistas de ilustradores, narrativos, desferindo sobre eles ataques insidiosos, porque se sentem ameaçados por algo descoberto há centenas de anos: o desenho clássico. A Capela Sistina, então, deveria ser classificada como arte comercial, uma vez que foi realizada por designação de um propósito específico e, nesse caso, seria ilustração, encomenda. Mas, quanto a mim, já que Michelangelo fez ilustração, é uma grande oportunidade de ter um mestre acima de qualquer suspeita, portanto, uma oportunidade para estar em ótima companhia.

    No voo poético dos ingênuos, a pintura estaria acima da ilustração, o que não é verdade. Acredito mais na boa ilustração do que na pintura duvidosa da nossa época, pois não é um lugar na parede ou uma página impressa que vão determinar a qualidade da obra. O fantasma que persegue os artistas narrativos é o rótulo imposto pela crítica hedionda de que toda obra pictórica que conta histórias pertence à esfera da ilustração. Enfim, Gustav Mahler disse que “a tradição não é a adoração de cinzas, mas a preservação do fogo”.

    Não existem caminhos fáceis e estamos diante de um novo mundo que se cobre de trevas, onde o trans-humanismo substitui o homo-sapiens e a história fatalmente perderá seu registro. Nem mesmo sabemos do futuro da arte e sobre a própria possibilidade de perpetuação. Pelo visto, o Governo Secreto do Mundo vai extinguir a percepção individual e substituir tudo por pastiches de perceptos, para que sirvam aos interesses sórdidos da política. Vai ser a era da conspurcação estética em que a arte possivelmente morra de vez.

    Enquanto os artistas dos séculos passados ​​pintaram histórias da Bíblia, mitologia grega ou a própria história, e quero fazer parte desse panteão, as narrativas do realismo contemporâneo hiperfotográfico se postulam como originais, dizendo-se esses artistas que são únicos. Que o trabalho que fazem não pode ser encontrado nos livros ou nas notícias. Os artistas do realismo contemporâneo sem técnica acham que inventam as histórias e fazem seu público trabalhar para descobri-las, como quebra-cabeças. Declaram, a partir da massa opaca dos seus cérebros, que as narrativas são pós-modernas, confessam-nas necessariamente ambíguas e que podem ter mais de uma maneira de enfeitar os seus delírios pictóricos. Ainda, aludem que criam algo para reafirmar nossa humanidade e senso de propósito. 

    O realismo contemporâneo, na ótica dos seus cultores pós-modernistas, não passa do mesmo deboche do século vinte, com a pretérita enxurrada de porcarias desovadas no mercado. E o que é o verdadeiro realismo contemporâneo? Numa visão artística e histórica mais elevada, é a continuação do realismo clássico com a respectiva adoção dos temas contemporâneos que nos cercam. Simples como água. Ora, a pintura narrativa surge dos temas universais inerentes à própria arte e busca captar a condição humana. Quer entender a beleza, a verdade, a tragédia, o amor e a morte. Quer explorar o que significa ser humano.

    O realismo contemporâneo, já na visão dos seus cultores pós-modernos, é produzir coisas que choquem os esnobes e iludidos. Carregam tudo de sensações metafóricas nos seus discursos, conferindo impressões outras à linguagem, ao objetivarem o indecodificável. O subjetivo doloso de sempre, que vai abrir caminho às narrativas maldosas para justificar a contemporaneidade do genial, do novo vislumbre cognitivo que só os privilegiados podem alcançar. E, quem não entende o nível de tais discursos, está automaticamente execrado e fora do padrão intelectual convencionado para esse grupo social em questão.

   O realismo contemporâneo, no entendimento errôneo de seus praticantes não fez mais do que reproduzir fotos projetadas sobre telas imensas e continuar com a fraude velada, ainda que no próprio núcleo... Reinterpretações e recontextualizações infantis, algumas até um pouco criativas, mas a maioria deplorável. Então, o realismo clássico pode ser contemporâneo, desde que tratado dentro dos critérios da velha escola, mas longe dos discursos embromativos e dos projetores, que representam as lamentáveis muletas técnicas. Ora, resolvem também eivar o dito realismo contemporâneo de uma carga obsoleta de subjetividade surrealizada, dando uma volta no deserto da repetição. Aliás, sendo a falta de técnica na arte meu desafeto preferido, decidi ficar mesmo com os mestres do passado que sabiam desenhar e pintar sem as muletas de hoje.

Hoje, um público melhor informado já demonstra o poder que tem para reconhecer a beleza, a poesia e o verdadeiro significado da liberdade do retorno ao figurativo. Tudo isso pelo ressurgimento em larga escala da pintura figurativa, representativa, em todos os países do primeiro mundo: o realismo contemporâneo. Um neorenascimento, resultado da criação de inúmeras academias de arte clássica na Itália, França, Inglaterra, Rússia e Estados Unidos, no final do século vinte, aperfeiçoando os novos mestres do nosso tempo. O público já perdeu o medo de gostar do que é bom. Bem, minha escolha é fazer humildemente o que sinto com prazer e alegria, tentando ser feliz com isso. Dando o testemunho da minha presença no mundo, através de uma visão estética sólida e da compreensão de que a arte é honestidade acima de tudo. Se esta escolha não é um meio seguro, um navio no porto está seguro, mas não é para isso que os navios são construídos.